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Sobreviver ao maior desamparo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.04.08

 

Ballard e Spielberg = um filme mágico: O Império do Sol.

Ligam muito bem. É que Ballard entende a nossa época. E além de a entender, consegue traduzi-la para uma língua viva. E Spielberg entende Ballard e traduz essa língua viva, já em si tão sugestiva e visual, para planos e atmosferas que só ele consegue criar.

E quem, como eles, consegue falar dos dramas humanos mais horríveis com aquela frescura e clareza? Já o disse, há uma capacidade de ver a realidade, o olhar de um rapazinho. O adulto perdeu esta capacidade. De se extasiar. De abrir muito os olhos, de ficar de boca aberta. E de interrogar tudo, de tudo questionar.

J. G. Ballard ficou conhecido a nível mundial com este livro autobiográfico. Haverá outros. E todos a revelar a nossa época, para além das aparências, da ilusão. Em todos os seus livros há esta verdade para lá da superfície que só as crianças conseguem ver. O mais belo e o mais horrível. Só as crianças conseguem ver com olhos de ver a violência humana, a estupidez humana. A sua perversidade também.

Cenas dramáticas e poéticas:

O fascínio do miúdo pelos aviões: a sua presença sombreada no teto do quarto, as miniaturas na mão, às voltas na bicicleta, no jardim da casa.

A festa de máscaras, o avião abandonado, o grupo numeroso e ameaçador de soldados japoneses.

A casa deserta, a piscina vazia, a comida enlatada, a espera inútil pelos pais, as ruas desertas percorridas de bicicleta.

A fome, a sobrevivência no campo de prisioneiros, a luta por uma batata. As caminhadas dolorosas, a fome, a doença, a exaustão. E Jim sempre a tornar-se útil, sempre incansável.

A caminhada até esse estádio a céu aberto, no meio do nada, com objectos retirados das casas, carros misturados com mobília. Essa noite da morte da mulher, do casal que o acompanha desde o campo de prisioneiros. E a luz, o clarão no céu dessa bomba atómica que ilumina fantasmas…

O jovem aviador japonês que fica em terra porque o avião não pega, e com quem Jim descobre uma estranha cumplicidade… e que tentará desesperadamente salvar quando é atingido por engano.

A histeria no telhado do hospital, ao identificar os seus aviões bem conhecidos e amados. E o médico a obrigá-lo a declinar verbos em latim, para o acalmar.

O reencontro com os pais.

Jim é um rapazinho que quer salvar toda a gente. E que ficará com esta marca vitalícia: nunca mais poderá ver o mundo pelo olhar distraído do adulto.

 

Obs.: E daqui, de um outro lugar, a Xangai imutável e nostálgica que vemos no filme, na cena em que Jim se perde dos pais no meio da multidão.

 

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publicado às 12:53

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44

Manhattan

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.04.08

 

Manhattan…Woody Allen e Nova Iorque. Woody Allen e os diálogos delirantes. Woody Allen e Gershwin. A preto e branco.

Woody Allen frenético nos monólogos, onde várias ideias se cruzam, sempre um pouco neuróticas (bem, muito neuróticas...).

Nelerevemo-nos tantas vezes… As nossas pequenas existências, muitas vezes baralhadas, trocadas, torcidas, mas sempre (bem, quase sempre…) cómicas.

Manhattan, pois. O amor pela cidade de Nova Iorque nas imagens da cidade, a preto e branco, e na música de Gershwin. E logo a seguir o amor real, à escala humana, embora de duração tão improvável (daí o seu maior valor…) entre um cínico neurótico e uma rapariga simples e carinhosa. Amor que, apesar das inseguranças do homem, sobreviverá no final da história. E finalmente as dúvidas filosóficas sobre a vida, a solidão, os afectos, as inseguranças humanas.

Cenas inesquecíveis:

As conversas a dois, com a rapariga, em que Woody a aconselha a viver e a voar, que tem a vida à sua frente, ele é velho para ela… e a cena da despedida, verdadeiramente dorida de tão discreta na sua dor (doce doce Muriel…);

As dúvidas de Woody sobre a sua capacidade de comediante, mudando o rumo para viver da escrita e ficando com problemas acrescidos de dificuldades financeiras: perfeitamente visíveis no novo apartamento e na cor castanha da água que sai da torneira;

Todas as conversas dos dois amigos sobre as mulheres, os afectos, as complicações, os problemas financeiros, a cidade, os carros (Woody só se movimenta de táxi, recusando-se a contribuir para a poluição global e engarrafamentos) e as conversas a quatro, com uma Diane Keaton armada em filósofa arrogante, a criticar escritores (enquanto caminham, ao longo do passeio) e as obras na exposição (quando de novo se encontram os quatro);

Toda a visita ao planetário, Woody com Diane, dois perfeitos neuróticos… e a correria no parque debaixo da tempestade chuvosa…

Mas a cena mais impressionante é a final, no hall de entrada do prédio de Muriel, naquela troca de papéis. Tens de aprender a confiar... nem todas as pessoas são iguais... dir-lhe-á a rapariga, malas prontas, bilhete de avião na mão. Nesta cena é risível o ar de rapazinho mimado que o Woody afivela para a convencer a ficar. Ainda mais risível porque ao longo do filme é ele que a incentiva a avançar com a sua vida, é muito jovem, a diferença de idades, etc. e tal... Mas aqui vence o medo de ficar sem ela, de naqueles meses de ausência ela conhecer outro, jovem como ela... Mas a Muriel está segura, e aqui é ela a adulta da relação, lembrando-nos a constância e a lealdade, perdidas em tantos adultos...

 

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publicado às 16:42

E Hitchcock sempre a piscar-nos o olho...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.04.08

Rear Window.Só muito recentemente vi este filme de Hitchcock, o que para mim é um verdadeiro mistério! Já tinha visto praticamente todos os seus filmes… e logo este, tão famoso, com a Grace Kelly e tudo!, como era possível?

Da mesma forma que veio atrasado na minha vida, Rear Window surgiu-me entretanto várias vezes seguidas, talvez para compensar… E sempre que o revejo descubro novos pormenores em que não tinha reparado. Partes de diálogos, olhares furtivos, malícia, manipulação…

Hitchcock é um caso à parte no cinema. É o que eu sinto ao ver qualquer um dos seus filmes, sobretudo após a sua primeira fase dos anos 30, 40. A sua visão da sociedade e das pessoas, dos relacionamentos amorosos, por exemplo, está toda nos seus filmes. Às vezes de forma muito sub-reptícia. E o seu terrível sentido de humor também lá está.

As suas heroínas nunca são vulgares, ou sequer comuns, mesmo que o seu comportamento deixe muito a desejar. E os homens fingem deixar-se dominar por elas, pela sua incrível sedução, o que é terrivelmente sexy. Suspeito que, no fundo, ambos se manterão livres de qualquer domínio, eles e elas.

Excepto em Rear Window. Aqui não são apenas as circunstâncias que vão dar uma ajudinha à Grace Kelly na arte de dominar o homem que adora (à sua maneira). É sobretudo a terrível curiosidade humana, o tal voyeurismo que Hitchcock acredita fazer parte de qualquer humano que se preze.

No final o homem é domesticado, por muito cruouchocante que isto possa parecer (mas há prisões douradas e sedutoras que muitos aceitam alegremente. E porque não? O nosso herói já está a entrar na meia idade não tarda, e andar com a maquinaria às costas por locais inóspitos pode tornar-se a pouco e pouco menos convidativo…)

E pelo meio há um crime que o nosso par irá desvendar, com risco de vida e tudo! Risco que, para Hitchcock, também é terrivelmente sexy.

 

Nota: Este é o único filme com Grace Kelly aqui a navegar e o meu preferido dela. A personagem mais conseguida, diria mesmo, perfeita, na sedução irresistível, na sensualidade contida, na curiosidade irreflectida, na determinação em conquistar e domesticar o solteirão emperdernido. Jimmy Stewart não tem qualquer hipótese, será a mosca na teia de aranha. Mas como disse ali atrás, há "prisões douradas".

Também aqui, a navegar...

 

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publicado às 16:11


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